sexta-feira, 10 de junho de 2011

Escândalo revela laços entre líder da "Mães da Praça de Maio" e procurador acusado de fraudes

AFP


Um escândalo de suposto desvio de dinheiro público para empresas privadas, envolvendo a organização social Mães da Praça de Maio, revelou uma estranha relação da líder da organização, Hebe de Bonafini, e o ex-procurador da entidade, Sergio Schoklender, que cumpre pena de prisão.


A líder das Mães de Praça de Maio, de 82 anos, teve que se render à evidência e precisou parar de proteger Schoklender para não ameaçar o prestígio global da instituição simbolizada pelos lenços brancos usados durante 34 anos, para marcar a busca de informações por desaparecidos.


"Os irmãos Schoklender (Sergio e Pablo) são bandidos e traidores, mas eu vou continuar acreditando nas pessoas", afirmou magoada Bonafini, mãe de dois desaparecidos e símbolo da luta contra a ditadura (1976/83).


Sergio Schoklender, de 53 anos, é investigado por suposta lavagem de dinheiro, fraude contra a administração pública e associação ilícita.



Escândalo revela laços entre a líder da "Mães da Praça de Maio" e procurador acusado de fraudes


Afastado do cargo de procurador da Fundação das Mães da Praça de Maio há duas semanas, Schoklender era o coordenador da missão Sonhos Compartilhados, um enorme empreendimento de construção de milhares de casas, escolas e hospitais em comunidades carentes, com financiamento do Estado.


O subsecretário de Obras Públicas, Abel Fatala, disse que o Estado entregou à Fundação um total de 765 milhões de pesos (US$186 milhões).


O pedido de investigação foi apresentado há um ano por uma deputada opositora com base numa compra suspeita de uma fazenda por Schoklender.


Carros de luxo, aviões, dois iates e a formação de várias empresas, entre elas a Meldorek, uma construtora contratada pela mesma Fundação, aparecem agora entre os supostos bens do ex-protegido de Bonafini.


A estranha relação entre Schoklender e Bonafini começou nos anos 90, quando o homem ainda cumpria uma sentença de prisão perpétua por matar os próprios pais, em 1981, junto com seu irmão Pablo, um caso de muita repercussão que foi tema do filme "Passageiros de um pesadelo", numa tradução literal.


Integrantes de uma família de classe média alta, Mauricio, o pai, era representante na Argentina de empresas europeias da indústria bélica, enquanto a mãe Cristina, segundo alegaram os filhos, praticava supostos abusos e incestos.


Transgressora e desafiadora, Bonafini, uma dona de casa de classe média que, em 1978, "saiu de sua cozinha" para enfrentar a ditadura junto a outras mães de desaparecidos, tratou Schoklender como um filho, convencida de que o assassinato dos pais estava relacionado ao tráfico de armas envolvendo militares do regime.


Ao conhecer Sérgio, Bonafini ficou impressionada por sua inteligência e a capacidade de trabalho que, enquanto cumpria pena, formou-se, ainda na cadeia, em advocacia e psicologia.


"Na prisão, Schoklender mostrava uma impressionante capacidade de trabalho e de liderança entre os presos", disse à AFP uma psicanalista que pediu para não ser identificada, que foi sua professora por trás das grades.


Em maio de 1995, após cumprir 10 anos preso, Schoklender foi beneficiado por uma redução da pena com saídas autorizadas para trabalhos realizados junto às Mães da Praça de Maio.


"Isso nos levou a incorporar esse menino-prodígio a Organização. Nos pareceu estranho ela 'adotá-lo' como filho", lembrou nesta quinta-feira Estela de Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio, outra reconhecida entidade humanitária que procura os netos desaparecidos na ditadura.

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Oleh

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